segunda-feira, 15 de maio de 2017

Poética Quebrada


Para Marcelino Freire,

Nunca disse pra ninguém! Foi quando o perfume de formol se misturou com o cheiro da coroa de flores, que a poesia perdeu todo o sentido por aqui, mãe. A única coisa, ficou lá dentro, ressentida, mórbida, só, que sai de mim espremida em linhas de varizes prestes a explodir é a dor. Nunca, não explode, ela incha, prosa inflamada vira literatura de sangue pisado, sabe? Com personagens doentes por conta da tarefa de disfarçar cotidianamente o fedor de decomposição, eu, a céu aberto.
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Será que se fosse diferente, uma prosa com mais concordância, estilo e classe, menos repetição, inversões desnecessárias, viela, esgoto. Se o assunto fosse outro, viagens, os mares, noites, montanhas, uma estranha relação entre o outono, as folhas que caem, a poesia, os olhos claros dela… Será, se fosse assim, então, que aquela ambulância teria chegado a tempo? Na Piraporinha, no Chácara, no Jardim Marília, heim? Será que se eu colocasse a crase no lugar certo, isso traria o remédio que falta no posto Zumbi dos Palmares? Inútil, o verso mais lírico não esconde meu sonho mais grande: não morrer no corredor do Hospital Campo Limpo…
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Por volta das 22hs, chegou mais um dos nossos, de 16 anos perfurados, ao seu lado na sala, algodão no nariz, cemitério São Luiz, duas balas alojadas – tórax e pulmão. Crocodilagem! Acredita? Judaria, mano, ele morava na 2, não tinha nada a ver com o bagulho. Cagada! Caguetaram o moleque sem dó roubando no lugar errado para samango desceu a ladeira tudo apagado pistolas caiu em cima morreu o menino como cachorro. Lembra? Estampido, coisa que cai, canto de pneu, cheiro de pólvora, João Dias, medo atrasado, sede, o instante exato em que as suas pupilas dilataram. Mãe, a vida não tinha mais jeito. Não dá pra acreditar, mano, escuto os tiros sem parar na minha cabeça, você, ali, rosto sem expressão de paz, flor pisada; derramado, eu grito para dentro o verso de protesto que garrote estanca e criminaliza as poucas estrofes do amor inexistente entre todos nós.
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Era vazio a noite, enquanto a xícara de café distribuía o atestado de óbito para justificar a falta no trabalho, o gosto de misto-quente, de mão em mão, passava o silêncio interrompido apenas pela pá na terra, pela terra nas costas, pela respiração do futuro poeta se soterrando dentro de si.





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