quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sem Título 1


A morte parece com uma garrafa térmica caindo de repente, não, não é isso, melhor dizer: é uma garrafa de café que cai devagar, eu vejo escorrer pela mão do meu vô, camisa azul, caneta no bolso escrito em branco CMTC, bater de quina na pia da cozinha, às 16hs, a luz atravessa a janela cheia de gordura; e ir para o chão num movimento previsível até, talvez, pudesse evitar se… o barulho de vidro estilhaçando o recipiente do dia a dia, vida triste, baratinho na Piraporinha acha outra – a garrafa manchada, verde opaco dos dedos velhos do vô, quebra por dentro um líquido quente, açucarado, tão íntimo que não sabe que está ali, para sempre, os cacos no fundo do corpo, agora, extranho a si mesmo, repousam.

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