segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Vozes de Ouro Preto

Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou


 Só tem ladeira aqui. Os sapatos estão me matando. Acostumei descalço desde cedo, em casa, no Chácara, a lembrança doce de infância é os fiapos de vidro da rua entrando na carne devagar, com cheiro de chuva no asfalto quente, a agulha no fogo da vó tirando bichos da sola preta, furando as bolhas d’águas, pés sujos. Não vai dar para visitar todas essas igrejas. Este lugar dá saudades, não acha? Se continuar nesta direção, passamos pela Do Carmo, da Conceição, daí, vira direita na Matriz Pilar, Mercedes, Perdões e, finalmente, a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Está escrito no folheto turístico não precisar de visita guiada para essa última: altar simples, paredes, madeira, barro, ferro, sem ouro, construída por escravos proibidos de frequentar a missa com os brancos de Ouro Preto. Depois é só continuar subindo, achar um lugar barato pra comer perto do Hotel reformado pelo Niermeyer e pegar o filme do Grande Otelo e do Oscarito às 20hs. O subidão da Cooperifa também tinha paralelepípedos antigamente, sabia? Hoje é terça, não é? Perdemos o sarau. Será que a Dona Edite recita Navio Negreiro? A gente jogava bola do lado do Zé Batidão, na rua da Lazer, na da EMEI pouco mais pra baixo ou lá atrás na pracinha. Eu demorei muito para perceber que eles tiraram os paralelepípedos. Como uma coisa pode estar ali num dia e noutro, assim, desaparecer? Si a vida parasse, talvez fosse possível sofrer menos… Até o córrego perto do sacolão, no largo da Piraporinha, na frente da Casa de Cultura, eles tamparam. Um dia a bola caiu dentro dele, o Bunhu foi pegar, escorregou, meteu o pé no esgoto, ficou puto, foi embora. Poucos do time sabiam seu nome – foi estranho enterrar o Dirceu no São Luiz se o Bunhu é que morreu, coisa besta, não obedeceu quando eles mandaram. Parado, encosta na parede, levanta os braços, abre a perna, devagar, devagar, devagar, meu filho, a vó ensinou nunca correr, descalço, pé preto, fica atento, não anda sozinho, diz só “sim” ou “não” e não esquece do “Senhor” no final de cada frase. O moleque jogava muito. Podia estar nas Olimpíadas. A moça do judo é da Cidade de Deus, né? Ouro Preto tem paralelepípedo de 200 anos. O pessoal fala que absorve melhor a água da chuva e tal. Era asfalto, o sangue do Bunhu foi pela sarjeta até a boca de lobo.
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Os olhos de Dirceu que são réus e culpados, que sofra e que beije os ferros pesados de injusto Senhor, raça do caralho, enquanto Marília é degredada de seu próprio corpo, que não lhe pertence mais, nas jornadas de 40 horas de trabalho, salário de miséria, ônibus lotado, preocupação pro filho não entrar no tráfico, a filha não engravidar. Uma merda!
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A poesia conquistada retém o impulso de querer tatuar o nome dos mortos nas costas desses filhos das putas. Bunhu! Morreu o melhor de nois naquele dia. Amarrá-los também em praça pública, riscar seus lombos, jogar sal, ver a pele pálida encolher igual lesma, sabe? Murchar, os desgraçados! Observar as lágrimas se misturarem com o sangue e desencarnar os privilégios, um por um. Cortar a mão de quem aperta o gatilho, de quem faz a arma e vende e lucra com a bosta toda. Talvez a igualdade chegue só assim. Não? Não pode ser. Ainda que os inconfidentes não se incomodassem com a escravidão. Não. Ainda que, no museu da Casas dos Contos, o monitor apresenta a cozinha dos escravos de olhos azuis e crachá da Universidade Federal de Ouro Preto, enquanto a faxineira negra, que me chama de filho quando ensina o caminho do banheiro, tem no lado esquerdo do peito o nome da empresa terceirizada, talhado em letras douradas. Não. Ainda que esse desejo violento de destruição seja a mais sincera vibração dos meus versos. Não. Ainda que a carne enrijeça ao lembrar do estalar do chicote neste amontoado de coisas, nesta senzala moderna chamada periferia como disse o poeta. Não. Libertas que serae tamen.
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P.S.: O nome da minha vó também era Laura, sabia? Ela faleceu exatamente no dia em que peguei um avião pela primeira vez. Passei anos procurando a ligação entre essas duas coisas. Ela era mineira como você. Nasceu perto de Ouro Preto. O apelido dela era “branquinha”. Não há sentido para nada disso. Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Leia Drummond. Não resolve nada, Laura, apenas ajuda a reconhecer as flores amarelas, medrosas, que perfuram o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio. Força e obrigado. O seu medo, talvez, seja o melhor de você, com ele se salvará um dia e nos dá hoje uma esperança mínima. 

Um comentário:

  1. Perdi o fôlego no segundo parágrafo...E, tudo mais foi se tornando um misto de dor e êxtase! Foda ter gosto de sangue na boca e lutar para que o mel sobressaia entre uma chibatada e outra . Não, segue o mantra..."libertas que serás tamen"...Foda !

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